Se preocupar com os problemas dos outros, se colocar no lugar do outro, é um comportamento natural do ser humano - embora nem sempre a gente coloque isso em prática. É o que chamamos de “empatia”, uma habilidade cognitiva que nos permite olhar do ponto de vista de quem é diferente. Agora, é possível dar um passo além e de fato fazer algo para resolver os problemas dos outros… Se isso é que é empreendedorismo, então Igor Marinelli é um empreendedor nato.

Hoje à frente da Tractian, startup de machine learning e data analytics. Seu desafio atual é ganhar espaço em um mercado dominado por poucas empresas, todas gigantescas, e que não estão dispostas a abrir mão de fatias do mercado para novos entrantes - ainda mais startups criadas por jovens e com energia para trazer novas práticas ao segmento.

Mas sua jornada empreendedora começou muito antes da criação dessa empresa de tecnologia.


Sabe aquela história de que os nerds são os novos donos do mundo? Pois é, desde os 10 anos de idade Igor já estava lá, programando e codando. “Sempre fui uma pessoa muito curiosa, gostava muito de tecnologia e era muito pouco ligado às tarefas da escola. Sempre era o aluno que estava em primeiro lugar mas nunca estudava pras provas”, ele lembra rindo. Ainda moleque, conseguiu hackear a rede de computadores da escola, o que rendeu uma suspensão e aquela clássica ligação da diretora para os pais.

Foi aí que seu pai acabou virando a primeira influência no seu desenvolvimento empreendedor. Primeiro, Seu Marcelo questionou a escola sobre a própria segurança da rede, já que tinha sido invadida por uma criança ainda no Ensino Fundamental.

Depois - e essa é a parte importante - chamou o filho pra um papo sério e disse: “O que ter hackeado a rede da escola trouxe de bom pra sociedade? Você acha que vale perder seu tempo com isso?”. Ele não estava bravo e nem impressionado, mas queria estimular um mindset de impacto no filho. E funcionou.

Anos depois, já no Ensino Médio, Igor lembrou da fala do pai quando estava andando por São Carlos: “Vi um cara no semáforo com uma placa de papelão escrito ‘Campanha Ajude o Enrique’, e uma conta bancária embaixo. Era um pai segurando um cartaz no meio da cidade porque estava desesperado para conseguir dinheiro para pagar a cirurgia do filho doente”. Parou pra conversar e descobriu que o Enrique, na verdade, tinha sofrido paralisia cerebral e o pai estava há mais de três anos tentando conseguir uma cirurgia para o filho.

A conversa ficou na cabeça e assim que Igor chegou em casa deu um Google e descobriu que eram centenas de famílias na mesma situação, buscando ajuda para pagar tratamentos médicos raros e com preços surreais. “Na manhã seguinte já comecei a codar. Eu sou assim, eu vou e faço, nunca penso muito antes. Não pensei em modelo, em nada, só comecei a codar a plataforma”.

A plataforma a que ele se refere é a Somos Todos Heróis (STH), ONG que ele criou em 2016 para facilitar, por meio da tecnologia, o financiamento coletivo do tratamento médico de crianças quando as famílias não têm condição de pagá-los sozinhos. As famílias podiam pedir ajuda pela plataforma, explicando suas histórias e ganhando uma projeção que só a internet poderia trazer; qualquer usuário, por outro lado, podia ser um herói e fazer uma doação. A ONG nasceu em São Carlos mas já apta a ajudar crianças e adolescentes do país todo.

Depois - e essa é a parte importante - chamou o filho pra um papo sério e disse: “O que ter hackeado a rede da escola trouxe de bom pra sociedade? Você acha que vale perder seu tempo com isso?”

O modelo dava sofisticação a ideia de “corrente do bem”: o dinheiro arrecadado pela STH era transferido diretamente para o hospital - evitando fraudes e aumentando a confiança no processo - e todos os doadores recebiam um recibo da cirurgia. Quando o valor arrecadado é maior do que o necessário, o excedente vai para o próximo paciente precisando de ajuda.

Desde seu surgimento, a STH já ajudou mais de 45 crianças e arrecadou quase 150 mil reais. O crescimento foi exponencial: o projeto que começou apenas com Igor e seu notebook hoje já reúne 5 colaboradores e mais de 50 voluntários.  

Hoje Igor permanece no Conselho da ONG, mas se distanciou da operação - onde permaneceu presidente por três anos - e está focado na Tractian. De quebra, ampliou o seu entendimento sobre impacto e o que significa fazer a diferença. “A ‘Somos Todos Heróis’  tinha um propósito muito grande de mudar a vida de pessoas, de várias pessoas. Hoje, com a Tractian, eu vejo que consigo transformar a rotina dentro da empresa, a rotina das pessoas. Meu drive é utilidade. Isso vai ser útil pra alguém? Então vou continuar fazendo”, ele explica.

Outro personagem importante na sua história foi o próprio ecossistema empreendedor de São Carlos - e foi a 10.000 quilômetros de distância, durante um intercâmbio na Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA), que ele percebeu isso de forma mais clara: “A experiência lá foi sensacional, porque eu tinha aula com fundador do Lift, do Uber, mas no fim ainda era uma universidade, com aulas e trabalhos, e o que eu queria era empreender”.

A ‘Somos Todos Heróis’  tinha um propósito muito grande de mudar a vida de pessoas, de várias pessoas. Hoje, com a Tractian, eu vejo que consigo transformar a rotina dentro da empresa, a rotina das pessoas. Meu drive é utilidade. Isso vai ser útil pra alguém? Então vou continuar fazendo

Berkeley, mesmo sendo considerada uma universidade empreendedora, não era um espaço de incômodo e insatisfação - ingredientes essenciais para o despertar empreendedor. “Todo mundo era muito satisfeito com o curso e com a universidade, e isso me perturbava de um jeito irritante”, ele conta. “Não tinha um inconformismo com a realidade ao redor igual existia em São Carlos. É muito legal sair da sala de aula e ir pra um lugar de pessoas querendo sair o padrão. A melhor coisa nesse começo de trajetória empreendedora é encontrar gente inconformada igual a você, e em São Carlos está cheio de lugares para isso, como o WikiLab, Onovolab.”


É a velha questão do ponto de vista: estar rodeado de problemas, no fim, também é estar rodeado de possibilidades de intervenção e atuação. Chances de mudar a realidade. Empreender, no fim, começa com o exercício de olhar ao redor. Você tem feito isso?