O que move a mudança?
Aqui na Fluke, nos perguntamos isso todos os dias. Por isso, começamos a postar no #BlogFluke conversas com pessoas que transformam, inovam e inspiram. Pessoas que são a cara da Fluke! Conheça Ligia Di Nardo, a empreendedora de São Carlos por trás da Be.Benefits, uma das startups de sustentabilidade mais inovadoras do mundo!

Foto de Lígia Di Nardo

“Nunca fui um perfil muito acadêmico, sempre fui muito prática, de resolver problemas”. Ligia com certeza não era a única que achava o aprendizado da graduação muito teórico, distante dos problemas reais das pessoas. Na época, ela cursava Engenharia de Materiais na Ufscar, e sentia um impulso de extrapolar os muros da universidade e botar a mão na massa. “Numa dessas comecei a desconectar do curso e buscar propósito”... Mas como fazer isso?

Hoje, ela está a frente da Be.Benefits, startup de São Carlos que usa tecnologia para criar um programa de fidelidade sustentável para o mercado de produtos de beleza e cuidados pessoais e acaba de ser premiada em como uma das melhores soluções sustentáveis na edição global do Startup Weekend.

Ela quer transformar o jeito das pessoas lidarem com os resíduos plásticos - ou melhor, o que enxergamos como "lixo". A solução se baseia em dois pilares: conveniência e experiência de compra&descarte. Ligia e seu time provocam as pessoas para que repensem seus hábitos de consumo, para isso, oferecem um benefício corporativo que ajuda funcionários de empresas de todos os segmentos a terem acesso a mais produtos de beleza e cuidados pessoais e ainda encaminha os resíduos gerados para recicladoras oficiais. A proposta viabiliza a logística reversa de embalagens de produtos de beleza, pois concentra pontos de coleta inteligente no lugar onde as pessoas trabalham, dando a oportunidade de levarem quase que todos os dias suas embalagens vazias, sendo bonificados por isso.

Fundada por ela e outros colegas da USP e UFSCar, a empresa começa a operar em breve e lidando com um problema urgente: se nosso ritmo de produção de lixo continuar o mesmo, os oceanos terão mais plástico do que peixes até 2050. Estamos próximos dos limites do nosso planeta, e grande parte dos caminhos alternativos têm surgido das ideias de jovens inovadores como a Ligia.  

Mas, antes de empreender, ela deu voltas e voltas na busca do tal do propósito: participou do Centro Acadêmico, da Atlética, de projetos de voluntariado, passou um mês em uma comunidade na Paraíba, trabalhou em multinacionais e startups… Testou, deu a cara a tapa, se entregou de cabeça. Conversamos com ela para entender melhor como essa Fluker pensa!

O que é impacto para você?

Fazer a diferença no final do dia, colocar tudo que você tem à disposição, intelectualmente e também paixão, pra fazer alguma coisa acontecer. E de preferência alguma coisa que mude alguma realidade, que mude a vida das pessoas.

Eu sempre tive muito forte o lado do impacto social. Sempre quis melhorar a vida de pessoas mais carentes. Desigualdade e falta de oportunidades, fome e miséria tiram o meu sono. Quero usar tudo que eu tenho para repensar um problema e mudar a vida de alguém.

Durante a faculdade eu fiz uma viagem de extensão universitária para uma comunidade da Paraíba, parte do Projeto Rondon, e passei um mês lá vivenciando a realidade dessas regiões pouco assistidas e propondo oficinas de capacitação. Quando eu voltei, tive a certeza que queria trabalhar com impacto social. Mas aí foi um longo caminho até realizar isso na Be.Benefits.  

Como foram suas primeiras experiências com o mundo empreendedor?

Eu sabia que queria trabalhar com impacto social, mas não sabia que existia uma carreira nisso. Acabei fazendo um estágio de graduação tradicional, no chão de fábrica, que foi muito importante para eu perceber que aquilo ali não tinha nada a ver com o que eu queria fazer. Queria trabalhar com gente, sempre fui muito mais psicóloga que engenheira.

Quando chegou a época de eu entregar o meu TCC, resolvi fazer sobre a metodologia lean startup. Em 2014, na Engenharia de Materiais, lean startup era papo de louco. Nem meus colegas entendiam com o que eu trabalhava. “Por que você não está indo para um banco, para o BCG ou para a Natura?”. Eu era vista como um outlier de um certo ponto de vista, meus amigos me procuravam para resolver cases de inovacão nos processos de Trainee de grandes bancos e empresas tradicionais, era divertido, mas definitivamente não era pra mim.

Me deparei, então, com um anúncio de vagas de estágio na área comercial de uma recém montada startup em São Carlos: "Estamos procurando um louco para nos ajudar a revolucionar a construção civil". Ali tive a certeza que eu queria estar junto daquelas pessoas nesse sonho. Foi então que começou a minha "escola de startup", na Ambar, a maior construtech da Am. Latina, que desenvolve tecnologia para repensar toda a jornada da construção civil. Depois disso, me formei e fui para SP.  Batalhei muito até que consegui uma vaga na startup do Tallis Gomes e fiquei 10 meses liderando projetos para a frente social da Singu, startup de delivery de serviços de beleza e bem estar, entregando milhares de clientes todos os dias para manicures e depiladoras através de um app.

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Como surgiu a Be.Benefits?

Durante a minha passagem pela Singu, tive contato com o mercado de beleza e cuidados pessoais, até então não conhecia os números e perspectivas. Comecei a me questionar se a única forma de futuro seria usar a tecnologia para promover mais serviços e colocar mais produtos na rua. O que será que as grandes marcas estavam fazendo na questão da sustentabilidade e reciclagem das embalagens? Do ponto de vista do usuário, existiam iniciativas que realmente fizessem sentido?

Estava empolgada e comecei a tocar diversos projetos paralelos. Uma hora falei pra mim mesma: eu preciso focar. E foi quando decidi me dedicar totalmente a minha ideia, ao meu próprio projeto de impacto. Tem que saber o momento de colocar o pé no breque e priorizar.

Eu queria fazer um negócio de impacto mesmo, não de impacto de fachada. Na Singu, eu já tinha visto de perto o mercado de beleza e como existia desperdício, geração de lixo. Onde iam parar as embalagens daqueles produtos? Será que não dá pra criar uma solução unindo economia circular e tecnologia? Algum serviço que vai realmente motivar as pessoas a reciclarem e ao mesmo tempo gerar informação relevante para as grandes marcas do setor?

Comecei a conversar com as marcas, as empresas, e ver como elas estavam lidando com a questão da reciclagem. Se existiam ou não iniciativas próprias. Percebi que as marcas se interessavam por isso, mas ainda não tinham as soluções.

Aí eu tinha uma oportunidade: trazer a mentalidade de startup para esse problema. A solução não estava no modo de pensar corporativo. Menos marketing e mais solução real. Usei tudo que aprendi na faculdade, nos meus trabalhos, e apliquei nisso. E assim a Be.Benefits foi tomando forma.

A participação no Startup Weekend em São Carlos foi decisiva?

Muito! Eu fui participar dessa edição de sustentabilidade do Startup Weekend porque estava sentindo falta de pessoas que pudessem se interessar pela minha ideia. Fui dar um pitch lá e ‘seja o que Deus quiser’. Eu sou a pessoa que põe a cara, não tenho medo de levar um não. Lá eu conheci meus sócios, e foi assim também que acabamos sendo premiados em nível global, competindo com projetos de mais 28 países.  

Aí que a ideia saiu do papel mesmo, já começamos a pivotar, validar, até que formulamos esse pré-MVP que a gente tem hoje e vai começar a testar. Vamos montar um programa de fidelidade sustentável, começar a fazer as pessoas comprarem mediante descontos gerados pelo descarte correto dentro de seus ambiente de trabalho. Nossa tecnologia vai entregar a informação que faltava para as marcas engajarem os consumidores na reciclagem.

E qual o seu sonho grande?

Eu sempre acreditei muito no conceito de sonho grande, de fazer coisas grandes. Mas também acredito na importância de resolver problemas locais. Think global, act local. É possível ter um impacto muito grande agindo de forma local.

Meu sonho grande por trás da Be.Benefits é mudar o mindset, sabe? A primeira linha do nosso manifesto é que as pessoas nunca mais se lembrem como é comprar sem descartar corretamente. Queremos mudar comportamento, mostrar que existe uma nova e melhor forma de se pensar o lixo.

Empreender é sempre um risco. Você às vezes se questiona se vale a pena?

Eu tive que dar um downgrade, sair do meu emprego em SP e voltar a estar mais próxima da universidade, para de fato entrar nesse ecossistema. Mas empreender com impacto estava tão alinhado com meu sonho que essa não foi uma decisão difícil. Minhas decisões nunca foram muito baseadas no curto prazo. Arriscar o curto prazo em nome no longo prazo sempre fez sentido pra mim. Não queria ser mais uma peça no tabuleiro de outras pessoas.

Eu sabia que estaria muito mais realizada vendo que estava impactando, que estava fazendo um negócio que ninguém fez antes, do que necessariamente ganhando um salário enorme.

Qual foi a importância do ecossistema empreendedor de São Carlos para você?

Foi tão fundamental. Foi tudo. A cultura que eu tive, as experiências que eu tive, os contatos que eu tive, nada disso teria acontecido se eu não tivesse mudado para São Carlos para fazer faculdade. Foi assim que conheci o pessoal da Ambar, que foram meus mentores desde o início da minha trajetória. Depois contei muito com a ajuda do círculo que eu criei durante a faculdade, e dos empreendedores da região, da Oz Produtora, da Fluke, da Predify, Raccoon, do ONOVOLAB.